Dar de mamar

Por admin em Opinião |  

por Ana Rute Cavaco (3 filhos) *

 

Já nem sei há quantos meses ando para escrever algo sobre este assunto, mas nunca me sai nada, com as palavras certas. Agora que ando num dilema sobre se aceito ou não um convite para ser formadora de amamentação, apetece-me falar sobre isto, porque talvez tanta gente se possa identificar com isto, ou entender melhor que uma experiência não são todas.A minha experiência a triplicar diz-me várias coisas: a primeira, que a primeira experiência de amamentação se pode repetir à segunda e mais, as mesmas dores, os mesmos primeiros dias complicados, a mesma vontade de desistir. Só o conhecimento dos benefícios me fez continuar. Só quem me viu nas primeiras semanas ou sentiu poderá compreender que, comigo, ter prazer na amamentação é um momento que demora a chegar, ou nunca chega.

Segundo: cada filho é um filho, e tive nos meus três provas inequívocas de que é possível engordar pouco ou muito nas mesmas fases, ter vontade de mamar durante períodos de 40 minutos ou mais.

Terceiro: adoro ter os meus filhos nos braços, observá-los e estar com eles. E não tem de ser a amamentar.

Quarto: notei que com mais do que um filho tinha ainda mais dificuldade em gerir sentimentos de culpa por falta de atenção, por estar só com o mais novo. Daí que a minha meta, nestes dois últimos filhos, tenha sido o amamentar em exclusivo até ao recomendado.

Quinto: no meu caso, e por sentir que muita coisa depende de mim em termos de logística em casa, ter um bebé a mamar grandes períodos de tempo com outro filho a reclamar comida ou atenção mexe-me com o sistema nervoso. Ouvir chorar, por exemplo, agita-me.

Sexto: nem todos os bebés que mamam permanecem sempre interessados. Na Maria, mais velha, esse desinteresse chegou pelos 10 meses; na Marta chegou bem cedo, com as crises constantes de falta de ar que tinha.

Sétimo: cada caso é um caso e generalizar a partir de uma experiência só é injusto e perigoso.

Se por um lado gostava de poder ajudar quem tem todos esses sentimentos nos primeiros tempos, por outro também gostava de ser uma ajuda para quem tem de desistir quando tem mesmo de ser. Na minha opinião, outros valores podem sobrepor-se ao dos benefícios do leite. Lamento, mas eu acho assim. Para tudo tem de haver um equilíbrio. Eu encontrei-o aqui, embora tantas vezes me sinta julgada exteriormente por quem acha que por ir mais além nesta área está à frente.

Limpo as lágrimas quando me sinto julgada e olho para os meus filhos e sei que foi o melhor. E este melhor já foi tão bom.

 

* obrigada pela publicação aqui - a sensatez desta opinião justifica-o.

Comentários

Um comentário sobre “Dar de mamar”

  1. Patricia em 28 de Julho de 2008 17:56   1  

    Eu tenho dois filhos aos quais dei de mamar e concordo plenamente com a Ana Rute quando diz que cada filho é um filho. Comigo também aconteceu assim, as experiencias só foram identicas realmente apenas no que diz respeito aos primeiros dias que para mim são sempre complicados. O que me fez querer comentar foi quando a falou em ser formadora de amamentação. Em conversa com enfermeiras amigas, todas concordam que é necessário criar um espaço onde se possa falar sobre o assunto fácilmente. Todas temos dúvidas e pelo menos para mim dar de mamar não foi assim tão natural, nem todos os bébés pegam da mesma forma, etc. Outra questão que acho importante é que nos casos das cesarianas (o meu caso) o leite só sobe em casa onde já temos poucos apoios com quem contar, os conselhos das mães, sogras e avós nem sempre são os melhores, eram outros tempos, outras teorias.

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