Jun
23
Açúcar amargo
Por Paula Almeida Lapa em Opinião | 6 comentários
Há uns meses, pela primeira vez, a minha filha mais velha viu os “Morangos com Açúcar”.
Aqui em casa não vemos novelas por pura falta de hábito. E olho com suspeição para as que se dirigem aos “mais jovens”. Sabendo que atirar para cima dos miúdos com a proibição total não é a melhor jogada, tenho de acreditar que devemos ser selectivos e, sim, censurar q.b. o que não nos parece de boa qualidade e de interferência duvidosa.
Pelo que ouço e vejo, há muitas crianças pequenas que assistem com alguma regularidade a esta série. Não sei dizer até que idade a considero pouco recomendável, falando só pelos temas do enredo geral. Já pela qualidade da produção em si, enfim, diria que é dispensável para todas as idades.
Pois bem, assim que acabou o episódio da novela da TVI, a minha filha que ainda não tinha feito 5 anos lançou-me olhares de desdém por cima do ombro, respondeu-me torto, bem à maneira de uma adolescente rebelde, e avisou-me:
- Sabes, mãe, quando eu for mais velha e mentir à minha amiga e a minha amiga ficar chateada comigo, eu vou ficar triste com ela e a mãe vai perguntar o que eu tenho e depois não te quero dizer e depois lá te conto e depois tu dizes não sei o quê e eu vou para o meu quarto sozinha chateada e ponho as mãos na cara e encosto-me à parede!
E ora toma. Aprendem bem e rápido.
Para mim, bastam bem as teimosias e os desafios de um criança normal que já apanhou jeitos teatrais suficientes, dos contos de fadas, para armar autênticas tragédias de faca e alguidar para cima dos pais.
Para a paz doméstica, os amigos d’”A Ilha das Cores”, ainda que bastante insossos aos meus ouvidos, acertam em cheio no entretenimento e mensagens adequadas.
Ao ver a I rir à gargalhada com uma trapalhice do “Manel”, a dançar ao ritmo da voz de cana rachada da “Palmira” e a responder bem alto às perguntas que fazem lá para casa, percebe-se bem qual é o seu programa-alvo.
(E se pensarmos na produção nacional, em televisão, parece evidente faltar algo que se adeque, e agrade, aos miúdos mais-crescidos-mas-não-tão-crescidos-assim)