por Teresa Frazão (6 netos)

Às vezes, tantas vezes, deixamos que as preocupações nos envolvam os dias e nem notamos, nem retemos, aquilo que torna cada manhã um recomeço.Pois foram assim as férias.
Algumas preocupações, que sempre nos parecem muitas.
A par com coisas banais como as compras para o dia a dia.
As roupas relativamente em ordem.
A leitura que procuro manter.
E as malhas, este hábito «tão fora de tempo» em que teimo, porque gosto que os meus dedos teçam a ternura. Devagar.

E depois desta «grande introdução» à minha ausência, dois apontamentos, esses, sim, referentes aos meus netos.

O mais extraordinário:
Passa-se na Beira Alta, onde chegamos sempre com medo de que este ano a casa tenha caído. Mas lá estava ela. Com cantos e recantos que os rapazes vasculham com minúcia.
O lugar preferido é o sótão. Eu cuidado que há ratos. E o que é que eles descobriram? Avó, são morcegos. Passaram a fazer romarias a horas certas para os verem, tiraram fotografias, aprenderam que os seus excrementos se chamam «guano» e que são um produto precioso.
Aprendi também.
Vou para aquela casa há sessenta e oito anos!
Moralidade - aprender até morrer.

E o mais colorido:
Ao telefone, para os meus netos de Évora.
Coisas de avó, conversa sobre o recomeço das aulas.
Com o mais novo, seis anos, o Pedro:
Eu - Já tens os materiais todos?
(Acho, sempre achei, que os materiais são o que há de melhor no início das aulas, tudo novinho, cores alegres, cheiro a festa!)
Pedro - Avó, tenho tudo. O pai já me comprou. Ah, não tenho afia-lápis.
Eu - OK, Pedro, vou-te mandar um pelo correio.
P - Quando é que manda? Como é?

E uma quantidade de perguntas.

Procurei mandar-lhe o afia mais giro que alguma vez vi. Às cores.

Lá foi ontem. Correio azul. E registado.

Bem, aquele afia-lápis!
E os morcegos!

Quero reter «isto».
E, parecendo que são coisas tão inúteis, elas dão sentido à vida.
À deles.
E à minha também.

por Teresa Frazão (6 netos)

Um amigo nosso, citando Carvalho Rodrigues, o pai do satélite português, disse-nos que só os seres humanos têm netos.
Na altura parece que não liguei muito.
Mas as palavras têm muita força ainda que nos pareçam esquecidas.De repente, lá estão elas. Vivas. Quase tão saltitonas como as bolas dos meus netos.

Agora, que vocês me desafiaram a escrever como avó, veio-me à memória aquela frase.
E sei que em cada dia nascemos para novas aprendizagens desta relação avós/netos. Nascemos e renascemos.
Difícil é enunciá-las.

ONTEM disse-me o Manel ao almoço:
- Vê lá o disparate que pensei. Aquele DVD que me deste com «Uma história simples», quero vê-lo com o Francisco. Para lhe explicar os planos e os movimentos de câmara. Que seca. O rapaz tem só doze anos.
- Não, ele gosta muito de fotografia. Vais ver que vai interessar-se. Talvez não o filme todo, …

E HOJE ao fim da tarde, à beira Tejo levámos os três anos do António a ver os barcos, chucha e bibe do colégio.
Fiquei no carro, a respirar serenidade.
E vi.
Imagem real. E também irreal.
Os setenta anos do Manel com o António pela mão. Os dois a apontarem os barcos. E os pescadores. Os iscos.

É por estas e por outras que só os seres humanos têm netos.

por Teresa Frazão (6 netos)

 

Continuam as férias…
De véspera inventamos os programas.

Uma novidade cada dia. Exageros de avó, bem sei.
Às vezes, muitas vezes, baralho todas as minhas tarefas.

De repente, inesperadamente, saltam os protestos, as birras.
«Não quero ir á festa dos primos. Tou a ver o Discovery»
«Mas vais»
»Está a obrigar-me?»
«Estou mesmo. E a seguir vou jantar ao MacDonalds com os primos.»
«E eu vou ver os horários das camionetas para me ir embora»
«Pois vais.»

E saio p’rá tal festa com um nó na garganta. Para o sorriso enorme do M quando me viu chegar.

Ficou o avô a aguentar «esta tourada».

Crescem os rapazes.
E também se zangam.
Lembram-nos, ensinam-nos que as relações das pessoas não são de posse.

Com esta idade toda, ainda não aprendi.

Volto para casa. Pergunto pelo telemóvel «onde estão?»
Sorte a minha. Vou ter com eles ao café.

Um sorriso. Um desculpe. E um abracinho. Doce mesmo.

Boa. O F continua cá.
A vida assim… Sem previsões nem certezas.

Temos um outro que de vez em quando tem fúrias fortes. «O que é que te aconteceu, M?»
«Deram-me arroz de cenoura, tive que comer arroz de cenoura.»

Rapazes, ensinem-me que já não vos visto os casaquinhos a condizer com tudo.
Que vos adoro.
Que a vida, a vossa vida é toda vossa….

 

por Teresa Frazão (6 netos)

 

Férias. Tempo sempre diferente.

Quando era miúda, em Tibaldinho, Beira Alta, casa de lavoura com cheiro a maçãs e candeeiros de petróleo. Pinhais mesmo, com carreiros e lagartos… Banhos em Alcafache, no rio Dão.

Ainda no liceu, quase na faculdade, férias eram idas para Santo Amaro, a turma mista do Pedro Nunes, inteirinha. Uma barraca alugada a custo e onde só cabiam os sapatos e os lanches….

Ao longo dos anos, foram variando as férias, pois claro.

Agora, «reformada» («reformada» o quê?) as férias são
As festas de final de ano dos meus netos, cheia de lágrimas, óculos escuros.
A casa com todos os sofás abertos e os rapazes a chegarem, geralmente à vez, ou dois a dois.
Um desalinho instalado.
E uma festa.
Todas as noites a pergunta O que é que fazemos amanhã?
E tenho tempo, invento tempo. Com gosto. Para o que não faço nem vejo durante um ano inteiro.
Viagens no eléctrico 28 (estou a dever uma ao Manuel e também uma gelatina).
Idas ao Chiado sem porquê.
Travessias de barco.
Um peixinho em Setúbal.
O convento do Carmo visitado e revisitado.
Um gelado na Brasileira do Chiado só para falar de Fernando Pessoa e do tempo de namoro.

Vir para casa dos avós é um belo programa.
Para as duas partes.
Para mim, um alento vital. E o mesmo para o avô, que já não adormece tão cedo no maple, depois do jantar.

Respiro.
Vejo a cidade e o bairro onde habito o ano inteiro. Quero dizer «vejo mesmo».

De certo modo, esqueço as agendas.
E as contas que toda a vida fiz.

Não fico criança.
Fico «perto». Bem perto. Como quando tricotei malhas em mantas e casaquinhos que fiz para cada um. E continuo a fazer.
A vida recomeça em cada malha.
Em cada dia.
Neste jeito e nesta alegria de quem tem a graça de chegar aqui. Quase sessenta e oito.
Com vozes que dizem «Vó», «Avó».