por Xana (2 filhos)

Imagine-se um dia inteiro com duas crianças pequenas. Imagine-se o acordar a horas improváveis, as birras para escolher o que querem comer, a escolha de roupa, as implicâncias um com o outro, ter de os entreter, dar almoço, chichis, cocós, convencer a dormir a sesta, lanche, brincar um bocadinho, banho, jantar, convencer a dormir. Agora imagine-se isto tudo de um lado para o outro, entre aviões, autocarros, comboios, dias inteiros de carro, hotéis, restaurantes, cafés, estações de serviço. São as (nossas) férias.

O mais próximo que tivemos de umas férias sossegadinhas com filhos aconteceu porque eu estava grávida de sete meses do segundo filho. Fomos para Lanzarote uma semana. Aqui, estar sossegados significou percorrer a ilha de fio a pavio, mais que uma vez, e ainda dar um salto a Fuerteventura, acelerando em toda a extensão da ilha, para cá e para lá. Com um ano e pouco, a filha dormia muito no carro e comia razoavelmente. Acho que a adormecíamos antes de ir para o quarto de hotel, com passeios no carrinho. Correu tudo bem e depois fez uma birra monumental no aeroporto, no regresso. As pessoas olharam-nos com pena, mas nós já estávamos habituados.

Não levámos iogurtes, nem sopas, nem comida enlatada, empacotada ou enfrascada. Comia o que havia. Sobreviveu.
Também não levámos brinquedos. Divertiu-se muito com a areia grossa e escura na praia, foi uma alegria.

A viagem seguinte com filhos foram quinze dias na Noruega. O filho pequeno tinha nove meses e ainda não andava. Ela tinha dois anos e qualquer coisa. Foi difícil. O filho ansiava por gatinhar e nem sempre podia ser. Berrou que nem um desalmado nas viagens de carro, sempre que não dormia e uma vez esgotados todos os entreténs possíveis. Valeu-me a minha sogra no banco de trás entre duas cadeiras. Coitada. A filha estava a largar as fraldas e por isso passámos a viagem com roupa encharcada em chichi dentro de sacos de plástico.
Não levámos comida. Passaram os quinze dias a comer sopa de peixe e pouco mais. Na Noruega só há sopa de peixe. Acho que levámos uns livros para eles.
Nesta viagem emagreci pelo menos três quilos à conta de carregar o filho pequeno e de o ouvir gritar. Jurei que não me metia noutra tão cedo.

Até à viagem seguinte, claro.

Lisboa - Faro - Guarda - Montalegre - Braga - Lisboa, em duas semanas. A minha filha, com uns estridentes três anos, falou a viagem toda de Faro à Guarda. Ininterruptamente. Isto foi talvez o mais difícil. De resto, correu tudo bem. Habituámo-los cedo à nossa comida, por isso não houve stresses com papinhas, sopinhas sem sal ou comida triturada. Se não comiam melhor, comiam pior. Foram quinze dias e não uma vida inteira. Dormiam sestas quando andávamos de carro, deitavam-se quando nós nos deitávamos, comiam quando encontrávamos um restaurante. Não tenho truques para dar: somos demasiado desorganizados para traçar estratégias. Às vezes faziam birras porque estavam maçados da viagem, do andar de um lado para o outro, claro. Mas também fazem quando estão parados.

Viagem seguinte: Croácia de autocaravana. Começámos logo bem, com o filho doente, a vomitar no aeroporto, antes de embarcarmos. As malas tinham excesso de peso, por isso tivemos de ir comprar umas revistas com sacos, e passar roupa de um lado para o outro. Quando chegámos a Milão, com duas malas enormes e vários saquinhos, apanhámos o comboio para Veneza. Não aconselho ninguém a andar a pé em Veneza, cheia de pontes com escadas, com várias malas e duas crianças. O filho continuou doente e percorremos a cidade com ele ao colo. Depois enfiámo-nos na autocaravana e siga para a Croácia.

Fizeram os dois chichi nos sacos-cama na primeira noite. O duche da autocaravana não funcionava bem. Ainda antes de chegar à Croácia tivemos de ir ao hospital porque o miúdo não melhorava e começou a tremer com febre. Diagnóstico gestual, entrecortado com italiano: otite.
Foi uma viagem bastante tranquila ainda que a minha sogra, que viajou atrás com eles, talvez não concorde. Havia sempre comida na autocaravana e casa de banho (mas decidimos voltar a pôr fraldas ao filho mais pequeno, porque passava o tempo a mijar-se pelas pernas abaixo). Tomavam banho dia sim, dia não, nos parques de campismo. Como não somos pessoas prevenidas, tivemos de lhes ir comprar chinelos a um supermercado, para os banhos. Mas, pasme-se: há chinelos nos supermercados da Croácia. Isto para dizer que não vale a pena levar de viagem tudo o que possa eventualmente fazer falta às criancinhas: nos outros países também há crianças.
No final das férias ficaram os dois com varicela, e foi uma sorte termos conseguido embarcar.

Quando a Paula me pediu para escrever sobre as nossas viagens, achei que ela tinha enlouquecido. É verdade que viajamos muito, mas somos provavelmente as pessoas menos organizadas que existem à face da terra. Esquecemo-nos de levar Brufen e brinquedos para a viagem de avião, e massacramos as crianças com trajectos cansativos a pé e de carro. Nem sempre temos em conta as necessidades deles, porque também temos as nossas. A nossa filha já nos implorou uma vez para pararmos com a caminhada que fazíamos há umas boas horas, e não me esqueço do desespero do meu filho, três dias enfiado num carro para chegar às ilhas Lofoten.

Mas há imagens que são inesquecíveis: o piquenique que fizemos numa praia na Croácia, no final do dia, porque a filha se lembrou e porque não. A nossa chegada a Milão, tão tarde, a estação de comboios imensa, e o M. à minha frente, com um filho e uma mala de cada lado. As brincadeiras com eles em tantos sítios diferentes. E sabê-los com uns pais felizes, porque o que mais gostamos de fazer é viajar.

Normalmente temos o cuidado de estudar o trajecto e definir os sítios onde pernoitamos, coisa que provavelmente não faríamos se fossemos sem eles. Mas acho que é tudo.
Por último, o meu segredo para uma viagem com filhos mais fácil: uma sogra bem-disposta e cheia de energia.

Passear de comboio

Por Paula Almeida Lapa em "Dias Perfeitos" | 1 comentário 

Vivemos há 8 anos perto da Linha do Douro. As minhas filhas vêem o comboio passar aqui perto mais do que uma vez por dia, desde que nasceram. No passado domingo, enfim, resolvemos andar de comboio!Inicialmente, a ideia era chegar só até à Régua, almoçar qualquer coisinha e regressar logo a casa. Um plano simples e rápido, sem grande espaço de manobra para imprevistos.

A meio do percurso, ao falar com o revisor, enquanto as miúdas ainda estavam semi-encantadas/surpresas com os bancos, as janelas, as outras pessoas, a velocidade e os abanões, resolvemos prolongar a viagem - era só mais um instantinho e víamos um bocadinho mais de paisagem mais bonita ainda e chegávamos ao Pinhão.

De facto, na estação da Régua a confusão é muito grande. É o ponto de encontro de quase todas as excursões que aliam o comboio aos cruzeiros de barco pelo rio Douro. Fiquei, portanto, sem saber se era fácil e/ou agradável encontrar um restaurante simpático e/ou chegar a alguma zona central agradável da cidade para passear.

Lá chegamos ao Pinhão, com as miúdas bastante esfomeadas. Fomos ao restaurante do Vintage House Hotel. Há uma entrada mesmo pela linha do comboio. Fica junto à margem do Douro, é muito agradável e os preços são muitíssimo caros. Já sabíamos, mas estávamos com o espírito um-dia-não-são-dias…. Comemos lindamente e fomos tratados como reis e princesas. :)

(o bom tempo fez-nos escolher ficar na esplanada e é altamente recomendável ficar por ali quando se está com crianças)

Ora, dado que o dia foi organizado assim em cima do joelho, e apesar de termos comido mais tarde do que contávamos, a coisa não estava mal de todo. De volta à estação, enquanto acabávamos os gelados e esperávamos pelo comboio, fomos abordados por um senhor que nos informou que naquele dia (domingo) só haveria novo comboio daí a 2 (DUAS) horas.

(TOMAR NOTA: ao consultar os horários da CP ler todas as alíneas, verificar todas as legendas, confirmar todas as chamadas de letras pequeninas. E, depois, fazer várias perguntas na bilheteira ou junto do revisor para ter a certeza de que o calendário não sofreu qualquer alteração) 

Pois bem, o que fazer no Pinhão com duas crianças num dia de calor, durante duas horas?

Ir até à praia fluvial. Há um parque infantil. Há cafés. Há árvores e bancos. Há um cais onde se alugam barcos para passeios de uma hora.

Mais uma vez, enfim, tudo se resolveu. Como quase sempre acontece nos Dias Perfeitos em família…

Esta família é que podia ter sido um bocadinho mais ajuizada se tivesse planeado com mais sensatez o dia para uma viagem deste género: é que fomos num dos últimos domingos do verão e na véspera do início do ano lectivo. Turistas e estudantes aos magotes enchiam as carruagens.

Ora, isto para quem vive todo o ano a cinco minutos de uma estação de comboio da Linha do Douro é, no mínimo, muita pontaria. :P Mas elas chegaram a casa cheias de histórias para contar.

por Alda Benamor (4 filhos)

Há dias perfeitos longe dos centros comerciais onde, ao primeiro passo, esbarramos em dezenas de ombros que atrapalham os nossos movimentos. E há dias perfeitos em espaços fenomenais que se perdem no meio de uma serra lindíssima, povoada por árvores e paisagens que nos transferem para outra dimensão. Há pouco tempo perdi-me, então, para os lados da Serra de Sintra.

Comecei por levar as crianças a uma ‘aventura tecnológica e científica’ no Sintra Ciência Viva, que ocupa actualmente aquele que, desde o século XIX, foi a Antiga Garagem dos Carros Eléctricos. O entusiasmo neste espaço nasce logo à entrada do recinto, equipada com dois tentadores baloiços acoplados que podem (e devem!) ser utilizados por qualquer visitante. A experiência de perceber e experimentar bicicletas em arames, binóculos que distorcem a visão e bolas que flutuam através de uma mangueira de ar levam-nos a um mundo tão entusiasmante, que aquela que supostamente seria uma simples visita rapidamente se transforma numa grande aventura.

Na parte exterior do Sintra Ciência Viva, existem bastantes experiências com água que os mais pequenos adoram conhecer e que nos explicam, de uma forma muito simples e óbvia, questões como o funcionamento energia solar, a forma como o fluxo da água influencia o movimento do que nela flutua e muitas outras realidades que experienciamos no dia-a-dia sem no entanto entender.

A nossa visita foi terminada ao som das melodias instintivamente criadas num tapete musical, passando ainda pela descoberta das nossas principais emoções num software interactivo, e pela percepção de que, vista à lupa, a nossa pele apresenta muito mais do que aparenta a olho nu.

Terminada esta visita, e se o bom tempo ajudar como me ajudou a mim naquele dia, sugiro que se aproveite a proximidade geográfica para visitar o Palácio de Monserrate. Já com 150 anos de vida, este Palácio revelou ser a melhor forma de libertar as energias dos miúdos. Numa extensão imensa de jardins botânicos e românticos, em que o verde e as plantas são a paisagem dominante, tanto podemos descobrir o esqueleto de uma capela como cascatas e lagos que parecem saídos de uma verdadeira história de encantar.

Mas aqui o desafio é grande: a visita ao Palácio e ao seu jardim não se faz em menos de uma hora. Os locais onde se pode descansar e recuperar energias não foram descurados, e o truque passará por absorver a magia das ruínas, dos recantos misteriosos, das flores coloridas e das árvores gigantes até à altura de subir a escadaria que nos leva ao interior do Palácio. Aí, a aventura já será breve, derivante do facto da maior parte das salas não poderem ser visitadas. Mas será também no interior daquele espaço que a fantasia se torna realidade, conseguindo, com pouco esforço, recuar nos 150 anos que nos separam da vida de um excêntrico e milionário Inglês que um dia projectou este paraíso.

Truques e dicas para um dia como este? Sapatos confortáveis e máquina fotográfica. O resto é paisagem!

por Andrea Freitas (2 filhos)*

«Um dia perfeito? Uma visita ao fantástico Parque Biológico em Vila Nova de Gaia. Situado no vale do rio Febros, em Avintes é o lugar ideal para um longo passeio com crianças, onde é possivel ver de perto animais e plantas em estado selvagem.

Uma reserva protegida de fauna e flora, uma oportunidade quase rara para os nossos filhos conhecerem um espaço onde a memória da ruralidade vivida em tempos, naquela região, ainda perdura. Por todo o lado existem aspectos rurais como espigueiros, casas, moinhos, noras…uma liçao ao ar livre.

Exitem dois tipos de percursos pedrestes, um mais curto e outro mais longo e é de espantar como as crianças entusiamadas com o que as rodeia conseguem caminhar quilómetros. Cada percurso é uma nova atracção. Aqui é possivel fazer todo o percurso de carrinho de bebé sem problemas. Já o fiz várias vezes.

O parque biológico foi considerado o melhor parque zoológico de Portugal. No parque existe uma cafetaria, mas em alternativa é sempre agradável optar por um picnic. Não faltam lugares com sombra para saborear uma bela sandwich trazida de casa.

Uma sugestão:

Pão, 100 gr de espinafres, 1 requeijão, 1 ovo cozido, 1 cl de sopa de maionese, 1 fio de azeite, mel e nozes q.b. (opcional);

Cozer os espinafres e misturar com os restantes ingredientes na picadora. Finalizar com as nozes e o mel.

Uma sandwich docinha para os mais gulosos.

No fim do dia, o cansaço é certo, bem como a certeza de uma noite bem dormida.»

 

* Uma amiga que nada tem a ver com blogs aceitou o meu convite para a sugestão de um “Dia Perfeito”, rubrica que estreamos hoje. Também daremos o nosso contributo, mas contamos trazer mais convidados ao Miudagem para conseguirmos uma bela colecção de relatos de dias perfeitos em família…